Some places are worth every pedal stroke
Ainda eram oito da manhã quando fechei o capacete, subi na minha e-bike e saí de casa em direção ao Val Ferret. Entre ida e volta seriam quase cinquenta quilômetros, mas eu nem pensava na distância. Na verdade, eu estava ansiosa por um daqueles dias que espero todos os anos.
Há lugares onde o caminho já faz parte da experiência.
Pouco depois de deixar Orsières para trás, o ritmo mudou completamente. O barulho dos carros desapareceu e deu lugar ao som constante do rio Dranse, que descia apressado pelo vale. O perfume das flores alpinas chegava em pequenas ondas, carregado pela brisa da manhã, enquanto os glaciares brilhavam ao longe sob um céu de um azul quase impossível.
Sempre que pedalo por esse vale tenho a mesma sensação: é como se a montanha me pedisse para desacelerar.
O Val Ferret faz parte do lendário Tour du Mont-Blanc, uma das travessias mais famosas do mundo. Durante todo o verão, caminhantes de diferentes países cruzam esse vale seguindo os passos do maciço do Mont Blanc. Mas, naquele dia, eu não estava indo fazer uma trilha.
Eu estava indo viver uma tradição que continua marcando o início do verão nos Alpes.

Quando o verão realmente começa
Quando cheguei ao Alpage des Ars, todos já sabiam exatamente o que iria acontecer.
Alguns agricultores conversavam tranquilamente perto da buvette. Caminhantes do Tour du Mont-Blanc descansavam depois da descida do Vale Ferret italiano. Ciclistas, como eu, encostavam as bicicletas e procuravam um bom lugar para observar. Famílias inteiras chegavam aos poucos, cumprimentando conhecidos.
Não havia palco.
Não havia apresentação.
Muito menos um espetáculo preparado para turistas.
Era simplesmente um dia importante na vida da alpina.
Todos os anos, no início do verão, os rebanhos deixam os vales e sobem aos alpages, onde permanecerão cerca de cem dias alimentando-se das ervas e flores alpinas. Esse período de pastagem em altitude é essencial para a produção dos queijos da região e faz parte do ciclo da agricultura alpina há séculos.
Essa subida recebe um nome simples: Inalpe.
Mas para quem vive nos Alpes ela significa muito mais do que uma mudança de pastagem. Ela marca o início de uma nova estação.
As vacas não estão brigando. Estão decidindo quem vai liderar
Pouco depois da chegada de todos os rebanhos, começa o momento mais esperado do dia.
As vacas Hérens começam a se enfrentar.
Quem vê uma luta entre vacas Hérens pela primeira vez quase sempre faz a mesma pergunta:
“Mas por que elas estão brigando?”
A resposta é simples e fascinante ao mesmo tempo.
Elas não estão brigando por acaso.
Cada fazenda chega ao alpage com seu próprio rebanho e sua própria líder. Durante os próximos cem dias, todos esses animais compartilharão os mesmos pastos. E uma nova hierarquia precisa ser estabelecida.
As vacas Hérens são conhecidas exatamente por esse forte instinto de dominância.
Foi impossível não prender a respiração quando duas delas pararam frente a frente.
Primeiro veio o silêncio.
Elas baixaram a cabeça.
Encostaram os chifres.
E então o impacto.
O som ecoou por todo o alpage.
É um barulho seco, forte, impossível de esquecer.
Ao redor, as conversas pararam por alguns instantes. Todos acompanhavam cada movimento. Em alguns momentos, quando duas vacas se aproximavam demais da cerca, as pessoas davam alguns passos para trás quase ao mesmo tempo. Eu também. Que medo! Mesmo sabendo que havia uma cerca entre nós, é impossível não respeitar a força daqueles animais.
As disputas continuam acontecendo durante todo o verão, até que uma única vaca seja reconhecida como a dominante do grande rebanho.
E assistir a isso ao vivo é uma experiência completamente diferente de qualquer vídeo.

O melhor lugar para terminar o dia
Depois das lutas, bastou seguir o cheiro da raclette para encontrar a Buvette des Ars.
As mesas de madeira já estavam cheias. Alguns dividiam uma raclette fumegante. Outros saboreavam carnes grelhadas.
Na vitrine, os queijos produzidos ali mesmo chamavam a atenção de quem passava.
O leite das vacas que passam o verão naquele alpage é transformado em Raclette du Valais AOP, tommes, sérac, manteiga e outros produtos artesanais preparados durante toda a temporada.
Mas o que mais gosto nesses lugares não é apenas a comida. É o ambiente.
Na montanha, é comum dividir a mesa com pessoas que você nunca viu antes. Cinco minutos depois, todos já estão conversando. Alguém comenta qual vaca pareceu mais forte. Outro lembra da rainha do verão passado e tenta adivinhar se ela conseguirá manter o posto este ano. Outro lembra de um Inalpe de anos atrás. Um caminhante conta de onde veio. Um agricultor explica como será o verão no alpage.
É uma convivência simples. Natural. Sem cerimônia.
Talvez por isso eu sempre sorria quando ouço alguém repetir que “os suíços são frios”.
Quem participa de momentos como esse descobre uma Suíça completamente diferente. Uma Suíça que acolhe sem fazer alarde.
Confesso que fui embora com alguns pedaços de queijo na mochila. Mas levei muito mais do que isso.
Enquanto pedalava de volta pelo Val Ferret, com o som do rio novamente ao meu lado, pensei que era exatamente por dias como aquele que continuo apaixonada pelos Alpes.
Não apenas pelas montanhas. Mas pela vida que acontece entre elas.

É por isso que gosto tanto de viver aqui
Na volta, enquanto pedalava novamente pelo Val Ferret, fiquei pensando em como esses dias resumem exatamente aquilo que mais amo nos Alpes.
Não são apenas as montanhas.
Nem as trilhas.
Nem as paisagens.
São as tradições que continuam vivas.
São lugares onde a produção de queijo ainda acontece como há gerações.
Onde os agricultores continuam levando seus rebanhos aos alpages.
Onde moradores e visitantes dividem a mesma mesa.
Depois de 30 anos vivendo na Suíça, continuo acreditando que a melhor forma de conhecer os Alpes não é apenas admirando suas montanhas. É vivendo o ritmo da vida que acontece entre elas.
