Beadventure in Switzerland

As Geleiras do Valais: Gigantes em Despedida

Uma primeira vez que mudou tudo

A primeira vez que vi uma geleira de perto foi em julho de 1996.

Meu marido me levou ao topo do Mont Fort, a 3.330 metros de altitude. Para chegar até lá, atravessamos a Geleira de Tortin de bondinho, suspensos sobre um mundo que, até então, eu só conhecia pela televisão.

Nada me preparou para aquele encontro.

As fendas profundas, algumas chegando a dezenas de metros. Os tons que iam do branco luminoso ao azul quase impossível. O silêncio imenso, denso, como se a montanha respirasse devagar.

Enquanto ele me explicava o que eu estava vendo, eu só queria saber mais. Entender mais. Ficar mais um pouco.

Acho que foi ali que nasceu uma paixão que nunca mais me deixou.

Desde então, tive a oportunidade de caminhar ao lado, sobre e até dentro de geleiras. E a emoção continua a mesma. As geleiras estão vivas. Elas se movem, respiram, rangem, guardam memórias antigas e desenham a paisagem com uma força silenciosa.

Mas elas também estão desaparecendo.

Aquela geleira que vi em 1996 já perdeu grande parte de sua espessura e do seu comprimento. E talvez, até o fim deste século, exista ali um lago alpino no lugar do gelo.

É estranho perceber que uma paisagem que parecia eterna está mudando diante dos nossos olhos.

O tempo, ali, não passa.

Ele derrete.

O Valais: terra dos gigantes de gelo

O cantão do Valais abriga cerca de 50% de todas as geleiras suíças, incluindo a maior de todas, a Aletsch. Aqui, entre montanhas majestosas e vales profundos, o gelo esculpiu a paisagem ao longo de milhares de anos.

As geleiras são reservatórios de água potável, reguladoras de temperatura e testemunhas do clima. Mas também são guardiãs de beleza, mistério e silêncio.

Com o avanço das mudanças climáticas, elas têm encolhido num ritmo acelerado. Entre 2001 e 2022, as geleiras suíças perderam mais de 30% de seu volume.

Geleira de Tortin – Entre emoção, aventura e paisagens épicas

A Geleira de Tortin, minha primeira, continua sendo uma das mais acessíveis e incríveis para se visitar. Localizada no maciço do Mont Fort, ela é ponto de encontro entre aventura, contemplação e descoberta.

No inverno: emoção sobre o gelo

Tortin abriga a famosa pista preta do Mont Fort, uma das mais altas e desafiadoras da Suíça.

Esquiar ali é sentir a força dos Alpes em cada curva: um encontro intenso entre altitude, gelo, silêncio e paisagens grandiosas.

Voe sobre a geleira — no verão ou no inverno!

A tirolesa do Mont Fort atravessa a geleira de ponta a ponta e transforma a paisagem em pura emoção.

Lá do alto, você voa sobre o abismo glaciar a até 120 km/h, em uma das tirolesas mais altas da Europa. Uma experiência intensa, aérea e inesquecível.

Caminhada com guia sobre o gelo

No verão, é possível cruzar a geleira a pé pela via cordata até o topo do Mont Fort, em uma rota equipada e acompanhada por guia de alta montanha.

O contraste entre rocha, gelo e céu azul cria uma paisagem impressionante, daquelas que fazem a gente parar por alguns segundos só para respirar e agradecer.

Para essa experiência, é obrigatório estar acompanhado por um guia de alta montanha. Posso indicar um excelente.

Vista 360º dos Alpes

Do topo do Mont Fort, a 3.330 metros de altitude, o olhar alcança alguns dos gigantes dos Alpes: Matterhorn, Mont Blanc, Dent Blanche, Weisshorn, Dents du Midi e muitos outros cumes acima de 4.000 metros.

É um panorama grandioso, quase irreal.

Na minha opinião, uma das vistas mais belas dos Alpes — daquelas que fazem a gente entender por que a montanha emociona tanto.

Cabane Tortin – Um luxo inesperado no coração das geleiras

A antiga cabana foi transformada em um chalé alpino de luxo, reaberto em dezembro de 2024.

Com capacidade para até oito hóspedes, oferece suítes elegantes, chef privado, guia de montanha e serviços personalizados.

Uma experiência sob medida para quem deseja viver a exclusividade e o conforto no coração dos Alpes.

Mais informações e reservas: https://cabanetortin.com

Da geleira até Verbier: uma trilha com alma

Depois de atravessar a geleira de Tortin e chegar ao topo do Mont Fort, a vista se abre em 360° e revela uma daquelas paisagens que ficam na memória.

Mas ali, o dia está apenas começando.

A região guarda trilhas, encontros e experiências para diferentes ritmos e desejos. Cada caminho revela uma nova forma de sentir os Alpes.

Você pode seguir pelo impressionante Tour du Mont Fort, com paisagens grandiosas e passagens variadas. Pode escolher o Tour du Bec des Rosses, menos conhecido e com uma beleza mais selvagem. Pode caminhar até a Cabane du Mont Fort ou até a Cabane de Louvie, onde a montanha parece pedir uma pausa.

Há também o Lac de Vaux, perfeito para quem tem coragem de mergulhar em águas alpinas, o Bisse du Levron, antigo canal de irrigação transformado em trilha panorâmica, e as queijarias de montanha, onde o queijo suíço ganha rosto, história e território.

Ao longo do caminho, a fauna e a flora alpina completam a experiência: marmotas, íbex, flores raras e pequenos detalhes que mudam a cada estação.

Como guia de montanha, posso te acompanhar nessas descobertas ou criar um roteiro sob medida para você e sua família.

E para quem deseja ir ainda mais longe, existe a travessia dos Alpes entre Verbier e Zermatt: uma jornada intensa, bela e inesquecível, onde cada passo revela uma Suíça muito além dos cartões-postais.

Como chegar ao Mont Fort e à Geleira de Tortin

Para chegar ao Mont Fort, você pode partir tanto de Verbier quanto de Nendaz. Os dois acessos levam, por teleféricos, até Les Gentianes e depois ao topo do Mont Fort, a 3.330 metros de altitude.

Por Verbier, o acesso é feito via Martigny, de trem, telecabine ou carro. O trajeto até a estação leva cerca de 35 minutos. Por Nendaz, o acesso é feito via Sion, com possibilidade de chegar de trem e ônibus ou de carro até a estação, seguindo depois pelas conexões de telecabines.

O bilhete ida e volta para o Mont Fort custa em média CHF 55. Para quem busca uma dose extra de emoção, a zipline sobre a geleira custa cerca de CHF 20 a 25. Já a via cordata deve ser feita somente com guia certificado.

No verão, a região revela ainda mais possibilidades. É possível chegar perto da língua da geleira de Tortin de bicicleta, pedalando por caminhos cercados por paisagens grandiosas. Outra experiência especial é assistir ao nascer do sol no topo do Mont Fort, com música ao vivo, cor des Alpes e café da manhã diante da geleira — uma daquelas manhãs que ficam na memória.

No topo do Mont Fort e no Col des Gentianes, os restaurantes panorâmicos convidam a uma pausa com vista. É o lugar perfeito para desacelerar, provar algo típico e contemplar a montanha sem pressa.

Para informações atualizadas sobre horários, preços e funcionamento dos teleféricos, consulte o site oficial Verbier 4 Vallées. E, se quiser transformar esse passeio em uma experiência sob medida, posso te ajudar a criar um roteiro especial nas montanhas suíças.

 

Conclusão – Ver para sentir, sentir para preservar

As geleiras do Valais não são apenas gelo.

São arquivos vivos da montanha. Guardam marcas do tempo, revelam a força da natureza e contam, em silêncio, uma história que começou muito antes de nós.

Estar diante delas é um privilégio. É beleza, mas também consciência. É encantamento, mas também responsabilidade.

Que possamos observá-las com mais atenção, senti-las com mais presença e respeitá-las enquanto ainda fazem parte da paisagem — e da nossa memória.

Nos vemos nas trilhas,
Bea 🌿

 

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